
Teve que aceitar a perda, e conviver consigo, pois apesar dos nebulosos dias, do incessante sofrimento, ainda tinha muito a fazer, não somente para si mesmo, mas também pelos outros. Outros, que ainda esperavam dele algum tipo de reação, que retomasse o sentido dos seus sonhos e o rumo das suas inquietudes, que retornasse ao seu próprio eixo e voltasse a inspirar tantas pessoas a expandirem as suas emoções. Um egoísmo se faz necessário diante da morte. Pensar em si e esquecer por um momento os outros. Fortalecer-se, mesmo que os outros se enfraqueçam pela sua ausência. Resgatar-se, mesmo que após, tenha que tecer a colcha da vida com retalhos. Inundar-se de sentimentos, para depois acontecer, diante das escolhas.
Por mais que a ferida ainda sangrasse, e a dor intensa o sufocasse, lhe remetendo ao mais hostil desagravo, decidiu seguir em frente. Enxugou as lágrimas e desapegou-se gradativamente das lembranças. Esforçou-se em apagar os sonhos, que insistiam em não deixar esquecê-la. Tentou confortar-se e recolheu-se. Inspirou-se nas suas próprias capacidades e nas letras reencontrou-se para a vida. Seguiu em frente. Não existe desamor sem dor, e a dor do desamor, assim como o próprio amor, caminha no fio da navalha, no limiar das emoções. Sangrar é a conseqüência de doar-se, de ser intenso. E isso, mesmo que inconseqüentemente, ele sempre foi.
A morte é a cessação da vida, mas também a ausência, uma dor violenta, a imobilidade ou a ruína. Uma privação intensa, uma perda, de alguém, de algo, ou de si mesmo. Em sua antítese, uma transição e um desabrochar. Um reencontro com a própria vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário