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sábado, 10 de novembro de 2012

Cogito


 eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do possível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.


(Torquato Neto)


terça-feira, 5 de junho de 2012

Poesia


Ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa
(Paulo Leminski)


terça-feira, 29 de maio de 2012

Repositório

Nosso coração guarda toda a poesia que o nosso cérebro não compreende, ou faz questão de não decifrar!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Verdades


Não existe simbiose em duas metades,
pois metades são metades,
e não há como ditarmos que são um inteiro.
Mesmo que tenhamos vontade,
metades são metades,
cada uma com as suas verdades.
A nossa vontade nem sempre será uma verdade,
ainda que pela metade,
queiramos assim entender.
Metades nunca terão uma só verdade,
pois verdades nunca terão metades.
Amputamos metades das verdades e elas serão únicas,
outras verdades talvez,
simbioses de outras vontades
das nossas almas libertas.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Cogito

(Torquato Neto)

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim

Cogito - Torquato Neto 

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Lamento


A vida é um lamento só,
lírico roteiro poético,
clichê de corações sedentos,
no pulsar da impulsividade.

Quem diz que têm,  não têm,
quem diz que faz, não faz,
quem diz que viu, não viu,
quem diz que sabe não sabe.

Quem não diz nada, não sente,
quem diz que sente, não mente,
quem mente sofre, doente,
na vida que é dor pungente.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Dôce Poeminha Antigo

"se você namora
dê beijinhos no portão
saiba que o amor é cego
mas os vizinhos não"

terça-feira, 27 de julho de 2010

Decifra-me...

"Decifra-me, mas não conclua... Eu posso te surpreender. Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão; tranqüilidade e inconstância; pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser. Não me limito, não sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer... Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca."

Clarice Lispector

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Chuva de Cores

quando chove na roseira
chuva intensa que molha
as rosas se despetalam
faz chover cores na terra

cores que às vezes faz falta
mas que quase sempre exalta
que quando surpreende assalta
o coração desavisado

por isso choro na roseira
e faço cair cores no chão
que logo colho e espalho
pra surpreender seu coração

coração que bem-me-quer
mas que bate longe do meu
num descompasso cruel
com jeito de mal-me-quer

coração amargurado
pelas asperezas da vida
a repetir um passado
que mal deve ser lembrado

por isso cato no chão
as rosas despetaladas
com elas faço chover
pétalas em seu portão

espero pacientemente
para quem sabe um dia
com a mais bela poesia
lhe tirar dessa ilusão

para que todo esse afeto
em motivo de paixão
consiga enfim aquecer
seu descrente coração

mulher que tanto me encanta
que canto em versos e prosas
a quem escolhi dedicar
não as pétalas mas as rosas

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Esse meu coração...

Meu coração derrama lágrimas
Afunda no mar das emoções
Delira inconveniente
Na loucura dos sentimentos

Atira na insensatez
Atrevido como é
Imprudente, faz pouco caso
Desdenha tudo que quer

Reclama mas não renova
Quer muito, mas não transforma
Aprova mas não conserva
Procura mas não permite

Meu coração é vagabundo
Acostumou-se na solidão
Bate forte e faz alarde
Quando quieto está infeliz

Quem diz que sentimento
É desgoverno recorrente
Infrutuoso não se lambuza
Não vive amor ou dor

Desdourar a vida breve
Acalmar o coração
Abdicar dos desejos
É morrer acelerado

Mal sabes que ser intenso
É marca é ser humano
E que viver arrebatado
É viver abençoado

sábado, 23 de janeiro de 2010

Homens, segundo Vinícius de Morais

Os homens bons, são feios.
Os homens bonitos, não são bons.
Os homens bonitos e bons, são gays.
Os homens bonitos, bons e heterossexuais, estão casados.
Os homens que não são bonitos, mas são bons, não têm dinheiro.
Os homens que não são bonitos, mas que são bons e com dinheiro, pensam que só estamos atrás de seu dinheiro.
Os homens bonitos, que não são bons e são heterossexuais, não acham que somos suficientemente bonitas.
Os homens que nos acham bonitas, que são heterossexuais, bons e têm dinheiro, são covardes.
Os homens que são bonitos, bons, têm dinheiro e graças a Deus são heterossexuais, são tímidos e nunca dão o primeiro passo!
Os homens que nunca dão o primeiro passo, automaticamente perdem o interesse em nós quando tomamos a iniciativa.
AGORA...
QUEM NESSE MUNDO ENTENDE OS HOMENS?

Moral da História:
" Homens são como um bom vinho. Todos começam como uvas, e é dever da mulher pisoteá-los e mantê-los no escuro até que amadureçam e se tornem uma boa companhia pro jantar "

"Mulheres existem para serem amadas, não para serem
entendidas."
Vinicius de Morais

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Trocadilho!

no gesto
o encanto
no encanto
a euforia
na euforia
o riso
no riso
a paz
na paz
a vida
na vida
a luz
na luz
o gesto

no gesto
a luz
na luz
a vida
na vida
a paz
na paz
o riso
no riso
a euforia
na euforia
o encanto
no encanto
o gesto

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Satisfação aos amigos...

Cultivo minha violeta
E acho que nem ela acredita
Mas já que a cuido tão bem
Ela me gratifica

Presenteia-me desde então
Com flores todos os dias
E como se não bastasse
Irradia

Não sei se isso é loucura
De um cara largado e sozinho
Mas sempre que chego em casa
A vejo alegre e sorrindo

Meus amigos me invejam
As amigas incentivam
Acho-me um grande pirado
Curtindo essa alquimia

Nunca pensei que um dia
Daria tamanho valor
Em mundo louco e vão
A uma bela e simples flor

Finalizo essa prosa
Com louvor e emoção
Ao perceber que uma flor
Aquece meu coração

Para quem não me entende
E busca explicações
Digo se acalme e entenda
Cansei de tantas emoções

Agora fico quietinho
Louco para chegar em casa
Cuido bem de quem me cuida
Agrado quem muito me agrada

sábado, 29 de agosto de 2009

Soneto do Maior Amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Vitória Íntima

Meu coração fechou as pétalas sobre os meus sentimentos

Como a penumbra da noite,
A meditação desceu em meu olhar
E acendeu dentro de mim a lâmpada serena.

Sozinha entre a multidão humana
Silenciosa no mar ululante da vida.

Submergi como um peso morto
Na fluidez espiritual do transcendente.

Helena Kolody

terça-feira, 23 de junho de 2009

Esse Polaco Karateca!

“o paulo leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filho da puta
de fazer chover
em nosso piquenique”

Extraído do livro “Caprichos e Relaxos”

Leminski é um bom curitibano, mora em nossos corações. Filho de pai polaco e mãe negra, nasceu em 24 de agosto de 1945. Viveu a maior parte de sua vida em Curitiba, tendo passado parte de sua infância em Santa Catarina. Um vanguardista na poesia, também fez experimentos em tipos de poesias que não tem uma raiz brasileira, como os haikais. Um boêmio de carteirinha, freqüentava vários bares, onde transcrevia em guardanapos os sentimentos, breves e profundos. Lembro dele no Bife Sujo, que eu freqüentava, quando vivia. Era uma alegria encontrá-lo, sempre rodeado de gente, pura arte.

Sua casa no Pilarzinho era um ponto da cultura curitibana, e muita gente fazia questão de vê-lo, pela sua genialidade, pelo seu encanto. Artistas famosos, como Caetano, ou novos talentos de nossa cidade, influenciados pelas suas palavras, pelas suas combinações, pela sua vida.

As oportunidades que teve em São Paulo e Rio, nos melhores jornais e revistas, não o afastaram de Curitiba, e sempre que questionado dizia que “pinheiro não se transplanta”. Um poeta maravilhoso, e uma vida bem vivida, pulsante. Morreu em 1989, no dia 07 de junho. Em frente ao Hospital Nossa Senhora das Graças, uma vigília silenciosa das centenas de pessoas que oravam e se despediam, em meio às lágrimas.

Isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Paulo Leminski

domingo, 21 de junho de 2009

Genial!

Torquato Neto era de Teresina\PI. Nasceu em nove de novembro de mil novecentos e quarenta e quatro. Escorpiano, foi um dos principais personagens da revolução cultural que difundiu-se no Brasil e um dos mentores intelectuais do movimento tropicalista. Suicidou-se aos vinte e oito anos, deixando um bilhete: “Tenho saudade, como os cariocas, do dia que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar.”

No dia dez de novembro de mil novecentos e setenta e dois, perdemos um dos mais críticos e geniais poetas da atualidade. Gosto demais da sua obra!

Estou sereno, estou tranqüilo
Estou contente
Nesta manhã nascendo devagar
Andei calado, triste
Indiferente
E de repente esta vontade de cantar
Um samba de ismael, uma ciranda
Uma toada do gonzaga, a asa-branca
Riacho do Navio
Luar de paquetá

Estou sereno, estou tranqüilo
Estou contente
Nesta manhã nascendo devagar
Mas de repente uma certeza espanta
Ninguém mais canta
E eu sozinho não posso cantar

Ah, quem me dera que hoje fosse o dia
De eu ser feliz na rua humildemente
Cantando com vontade e com alegria
Em companhia de toda a gente
Ah, quem me dera que outra vez na vida
Meu coração não se perdesse à toa
E que eu soubesse muito bem que é muito boa
Esta cantiga nova que inventei

Estou sereno, estou tranqüilo
Estou contente
Mas só deus sabe até que dia
Eu estarei

terça-feira, 21 de abril de 2009

Receita de Mulher!

Indiscutível o talento e a obra de Vinicius de Moraes, esse libriano, carioca da Gávea, que nasceu em 1913 e encantou o mundo com sua genialidade. Foi diplomata, boêmio, nosso poetinha! Uma estrela iluminada que aqueceu corações ao irradiar o amor e que estimulou e continua a estimular as mais loucas paixões com seus sonetos e versos. Lançou ao mundo um lirismo cativante, do tamanho do peito de todos os que puderam conhecer e admirar a sua obra.

Casou-se por nove vezes e foi feliz em toda a sua vida, pois à vida foi alçado e para ela existiu. Admirador das mulheres, do Rio, do mar, do amor....

Para aqueles que não tiveram a oportunidade de conhecer, trago este poema - "Receita de Mulher", onde ele ousa, inflama e polemiza, com ousadia, entre o céu e o inferno.


Viva Vinícius...

"As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário. É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar.
Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher de sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável."